Capítulo 1


        Três dedos impediram Finnley de uma visita inoportuna ao criador. Os telhados modernos de latão, novidade na casa dos mais abastados, ficavam bem escorregadios após a chuva noturna. A voz em sua cabeça disse de novo que ela valia o risco, mas seu coração acelerado e o suor frio de pavor disputavam quem gritava mais alto. Com uma respirada profunda agarrou o suporte do cano da calha sem nem olhar em sua direção. Inclinou seu corpo e se firmou com segurança com uma chave de perna.  Nas roupas secou as mãos e apertou pela centésima vez no peito o nó do saco de lona que carregava nas costas. Descendo devagar não pode evitar de pensar que a gente tem que ser grato pelo que tem. O mindinho havia quebrado tão grotescamente que precisou amputar ainda criança. O polegar perdera num momento de masculinidade frágil, envolvendo uma faca, muitas bebidas e o disputado olhar de sua Ellenida em um ambiente onde todos os falsos amigos se tornam verdadeiros. Desde que você ainda tenha moedas para a próxima rodada, se recordou.  Assoviando e evitando as poças com pequenos saltos deu três beijinhos nos dedos que ainda tinha na mão direita e foi direto para casa. 


...


No meio da escadaria ouviu Gerna a esposa do padeiro gritar uma advertência, -Não molhe a escada Finnley! Subindo rapidamente os últimos degraus trancou-se em casa. Fugia do golpe de cheiros maravihosos que fez sua barriga roncar e do ritual de submissão entre inquilino e locatário. Sabia que ela viria fiscalizar a secura da escada mesmo que a única vez que tenha cometido esse deslize tenha sido no inverno passado.


-Mãe? perguntou algumas vezes até encontrá-la dormindo. Reavivou o pequeno fogareiro no canto e adicionou duas toras para queimar durante a noite. De volta a sala correu a mão pelo saco de lona que havia deixado sobre a cadeira na cozinha e tirou suas botas secas e pendurou as meias na lateral do fogão de lenha para ficarem aquecidas.


Sorveu a sopa quente de forma ruidosa e com um leve sorriso, sem precisar prestar atenção em suas maneiras. O emblema dourado preso ao saco de lona refletia e dilatava suas pupilas. A inscrição nas bordas do mesmo indicavam; Guilda de Exploradores, Equipe III - Escriba assistente.


A caveira em alto relevo no centro do emblema  não o desanimava. -Pra uma última refeição poderia ter mais batatas. Pensou alto. Acabou bebendo o resto da sopa direto da tigela. Sentiu o confortável calor em sua barriga e pegou as meias aquecidas para ir dormir. Sabia que havia feito tudo que podia. Colocara penas reservas, frascos de tinta ensacados com palha amarrada para não quebrarem, mais roupas de baixo - a pedido de sua mãe - e já havia conferido o conteúdo por duas vezes com a ajuda de Ellenida. Afundou a cabeça no travesseiro suspirando e cobrindo os olhos com o antebraço. Deu uma rápida olhadela para o saco de lona que o espreitava da cozinha quando escutou passos nas tábuas do teto. Farelo sempre voltava tarde, um mau sinal que fazia o dia de amanhã parecer distantemente próximo.  











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