Capítulo 2

 Finnley desceu a a rua com passos largos e soltos. Comia o terceiro pão doce que havia tirado da sacola entregue por uma Gerna balbuciando palavras de boa sorte enquanto Perdu limpava a farinha das mãos no avental e vigorosamente agarrava seus braços e dava conselhos sobre racionar a comida. Despedira-se rapidamente do casal já enfiando um pão doce na boca mas apressando-se para evitar que vissem seu desconforto com o carinho demonstrado.


...


O café da manhã tinha sido uma refeição apenas no nome. Nada comera ou bebera enquanto se arrumava sob o olhar de sua mãe. Ouviu as costumeiras advertências e lembretes e concordava em tom neutro. Ambos tentando evitar a enxurrada de sentimentos que a partida causaria. 

- Então, estou com tudo aqui. Disse ajustando as fivelas, nós e batendo uma bota algumas vezes no chão. Olhava para baixo até que ao se aproximarem travaram um olhar mais forte e significativo do que poderiam verbalizar. Sempre haviam se tratado assim, então o abraco rápido e a despedida curta poderiam surpreender alguém que não os conhecesse. Os mais íntimos sabiam que o choro viria depois. 


...


As ruas ainda vazias significavam menos sujeira e lhe permitiam inspirar sem receios o vento refrescante. Quase que seguindo um caminho formado apenas por retas conectadas umas nas outras  Finnley dirigia-se para a Praça de Ferro. Vendedores e até mesmo alguns dos meninos de rua que tantas vezes lhe pediram um trocado, hoje tiravam os chapéus, boinas ou simplesmente acenavam para ele com a cabeça. Acenava de volta sem parar para reconhecer os rostos. Para um escriba tanta atenção era incomum. Vivia satisfeito executando um trabalho relativamente solitário. Gostava da paz e da rotina depois de tanto ter se esforçado para assegurar uma posição definitiva durante o período de iniciação da guilda. Considerava surreal que com sua limitação tivesse não apenas aprendido as técnicas da caligrafia, mas que se destacasse entre os melhores aprovados. 

Passou a mão na testa para retirar o suor que se formava. A luz do sol forçava passagem entre as nuvens como fachos de lanterna na noite e dobrando a última direita em seu caminho arregalou os olhos.

-Ellenida! Você disse que não poderia vir. 

-Meu amado se junta a um time que vai descer na boca de ferro e você realmente acha que eu não viria? Alfinetou de forma jocosa.

-Seu pai disse que não te liberari... tentou dizer antes de ser interrompido.

-Ah, não é como se ele fosse mandar a filha dele embora. Não quando ela garante que as moedas no cofre estejam na mesma quantidade do que o número anotado no livro de registros. Disse usando um de seus melhores sorrisos até hoje.

-Vamos escriba assistente do terceiro time! Chamou animada puxando-o pelo braço. 

Com passos ainda mais decididos, Finnley seguiu Ellenida pelo resto do caminho. Ela sempre demonstrou sincera admiração por ele. E mesmo tendo ajudado ontem em seus preparativos até tarde da noite, as olheiras e olhos levemente inchados eram incapazes de diminuir a sua vivacidade.

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